A continuidade do crescimento econômico é compatível com o que se convencionou chamar de sustentabilidade? O progresso social sempre dependerá do crescimento econômico? As análises usadas para se avaliar essa relação estão baseadas em convenções ultrapassadas, criadas quando nem se percebia a existência do aquecimento global?
Essas e outras questões estão no centro das discussões do livro “Mundo em Transe: do Aquecimento Global ao Ecodesenvolvimento”, do economista e especialista em desenvolvimento sustentável José Eli da Veiga. O livro foi lançado em dezembro de 2009 na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, em São Paulo (SP).
O livro chegou durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP15), que aconteceu em Copenhague, na Dinamarca. Ele está centrado principalmente na discussão do aquecimento global, mas também discute a transição para a economia de baixo carbono e a questão do monitoramento do ecodesenvolvimento.
Transição acelerada
O autor, que é professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), defende que a transição para uma economia de baixo carbono já avançou mais do que se imagina.
“Esse processo começou há mais de 35 anos com a Dinamarca, que tomou a decisão política de reduzir a dependência do petróleo desde a primeira grande crise energética, na década de 1970, buscando alternativas que não comprometessem seu desenvolvimento”, disse ele à Agência Fapesp.
Segundo Veiga, apesar de ter avançado muito também em outros países, a redução de emissão de carbono não resolve o problema, uma vez que “as emissões continuam aumentando”.
Na visão do autor, o que estimula as nações a se engajarem na transição ao baixo carbono é a visão de que o combate ao aquecimento global criará uma nova era de progresso e prosperidade.
“A descarbonização foi apenas relativa. Como se sabe, não resultou em movimento ao baixo carbono em termos absolutos. As emissões globais oriundas do uso de energias fósseis são cerca de 60% superiores às de 1980 e 80% acima das de 1970. Pior: são 40% superiores às de 1990, o ano base do Protocolo de Kyoto”, asseverou.
O dilema, segundo Veiga, é que se de um lado houve redução do consumo de carbono por meio de inovações tecnológicas, de outro a escala da economia continua aumentando, anulando a redução que se obteve por meio do avanço tecnológico.
Segurança energética
O repórter da Agencia Fapesp, Alex Alcântara, mostra que o livro está dividido em quatro capítulos que podem ser lidos separadamente, como se fossem ensaios autossuficientes. Sobre essa formatação editorial, o professor Eli da Veiga comenta que “os temas envolvem um encadeamento lógico fundamental”.
Além de pontuar a transição para o baixo carbono e da relação entre crescimento e sustentabilidade, o autor avança na discussão sobre o conceito de “decrescimento versus condição estável”. De acordo com o docente da USP, por mais que possa ser reduzida a intensidade de carbono da economia global, isso não aliviará a já excessiva pressão humana sobre os ecossistemas.
“Outro ponto que discuto é que não é óbvia a possibilidade de compatibilizar essa exigência de sustentabilidade ambiental com o anseio por mais crescimento econômico. A necessidade de superar o crescimento se coloca de forma inteiramente diferente segundo o grau de desenvolvimento atingido”, analisou.
Segundo Veiga, o pano de fundo na discussão em torno do aquecimento global não pode se limitar à pauta “altruísta”, segundo a qual os países deveriam ter um “compromisso ético com as próximas gerações por um mundo melhor”.
“Isso é importante e legítimo, mas tento inverter essa lógica. Tento mostrar que conta mais o problema da segurança energética no mundo hoje. E, em segundo lugar, que essa questão da segurança energética exige uma transição para energias renováveis e que isso é uma mostra de novas oportunidades para outra etapa do capitalismo. Esses dois problemas eminentemente econômicos pesam mais”, afirmou.
No último capítulo, “Como monitorar o ecodesenvolvimento”, o autor mostra como se mensura o desempenho econômico, a qualidade de vida e de como “não se mede ainda a sustentabilidade ambiental”.
“Será necessário monitorar o desenvolvimento sustentável com indicadores menos toscos que o Produto Interno Bruto e o Índice de Desenvolvimento Humano”, destacou.
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SERVIÇO
Obra: “Mundo em Transe: do Aquecimento Global ao Ecodesenvolvimento
Autor: José Eli da Veiga
Editora: Autores Associados
Preço: R$ 19
Páginas: 118
Mais informações: www.autoresassociados.com.br