Uma nova espécie de sapo, com apenas 13 milímetros, foi identificada em um fragmento de Mata Atlântica no município da Serra, no litoral do Espírito Santo. Batizada de Dryadobates caissara, a espécie vive em uma área de apenas 38 hectares, que perdeu 30% de sua extensão desde 2011, e já chega à ciência sob recomendação de classificação como criticamente ameaçada de extinção. Entenda mais sobre no artigo da jornalista Jennifer Ann Thomas, da Agência Fapesp
Um sapo de 13 milímetros vive em um único fragmento de Mata Atlântica de 38 hectares, entre casas, plantações de eucalipto e uma rodovia no município da Serra, no litoral do Espírito Santo. A mata perdeu 30% da área desde 2011, e a espécie enfrenta agora mais uma ameaça: o Super El Niño que começa a se formar. Batizada de Dryadobates caissara, ela acaba de ser descrita por pesquisadores brasileiros e entra para a ciência com recomendação de ser classificada como criticamente em perigo, categoria que antecede a extinção na escala da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), segundo estudo publicado na revista Zootaxa.
Além de ser a menor das oito espécies do gênero, a caissara é a única que canta sem pausa. A equipe do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) gravou 76 minutos de vocalizações de quatro machos e mediu 1.147 cantos, distribuídos em 13 séries de 13 a 152 notas cada. Nenhum foi emitido de forma isolada. Nas outras três espécies do gênero com acústica descrita, os machos usam os dois formatos, e as séries param em 45 notas.
“Imagine um sapo de 13 milímetros cantando sem parar por quase dois minutos, em uma sequência de mais de cem notas”, diz Max Hideki Oliveira Homma, primeiro autor do estudo. “Quando escutamos aquilo em campo, percebemos que estávamos diante de algo novo para o grupo. No laboratório, a análise confirmou o padrão”, completa. Os pesquisadores testaram ainda como os machos reagem ao próprio canto: diante da gravação reproduzida em um alto-falante, um deles deixou a área e outro se virou e caminhou na direção do som.
O canto de anúncio dos anuros tem duas funções conhecidas – atrair fêmeas e afastar machos concorrentes –, e uma das hipóteses levantadas no artigo é que cada formato se dirija a um desses destinatários. Há também uma explicação energética. Cantar consome energia, e as duas estratégias parecem responder a essa necessidade de formas opostas: a série longa e contínua se destaca em um ambiente com muitos machos cantando ao mesmo tempo, ainda que gaste mais energia de uma vez, enquanto o canto isolado e espaçado permite ao macho vocalizar por mais tempo ao longo do dia sem se esgotar. “Esse grupo foi tratado por muito tempo como uma única espécie, então estamos começando a entender sua evolução”, afirma Taran Grant, professor do IB-USP e autor sênior do trabalho. “Por ora, a descoberta levanta mais perguntas do que respostas. Qual é a função de cada tipo de canto? A nova espécie não emite cantos isolados porque eles nunca surgiram nessa linhagem ou porque foram perdidos?”
O estudo foi conduzido por Homma, Katarine Nogueira Norbertino e Grant, e recebeu apoio da Fapesp.
Uma mata que encolhe
A espécie em questão estava em coleções desde 2011, registrada sob outro nome. Ela foi coletada em armadilhas de queda (técnica em que baldes são enterrados no nível do solo para interceptar pequenos animais que caminham pelo chão da floresta) e ficou marcada como Allobates olfersioides, espécie descrita em 1925. Contudo, um sequenciamento genético publicado no ano passado mostrou que se tratava de uma linhagem à parte. Para descrevê-la, faltavam adultos dos dois sexos, fotografias em vida e gravações de canto.
A equipe voltou ao Espírito Santo em fevereiro de 2024 para buscar esses dados, mas encontrou uma floresta menor do que a de 13 anos antes. O fragmento entre os bairros de Costa Bela e Praia de Capuba tinha 54 hectares em 2011. Nos anos seguintes, a abertura de uma propriedade rural derrubou a mata ao norte do brejo, um incêndio e o corte de árvores perto de Costa Bela consumiram outra parte da vegetação e a construção de casas avançou até 150 metros do lugar onde os primeiros exemplares haviam sido coletados. Sobraram 38 hectares de floresta.
“Escrever essa parte do artigo foi difícil, porque não é o que um pesquisador espera encontrar”, diz Homma. “Esperávamos que a espécie estivesse em todas as matas da região, mesmo perto da urbanização, e encontramos o oposto: ela vive em uma área minúscula”, afirma. “Enquanto observamos os animais, escutamos trator, máquina e moto. Ao entrar na mata, vimos sinal de fogo, cerca e lixo.”
A busca começou pelo fragmento vizinho, de 79 hectares, onde os pesquisadores apostavam que iriam encontrar o animal. “Nas espécies que ocorrem mais ao norte da Mata Atlântica, quando você encontra um indivíduo em uma mata, outros também estão presentes nos fragmentos próximos”, explica Homma. Foram cinco dias e 40 horas de trabalho em uma área com pouca água e que ficou sem nenhum registro. “Acordávamos cedo e, em algumas noites, procurávamos até quase de madrugada”, conta o pesquisador. “Tínhamos combinado que, se não achássemos, iríamos embora.” O sapo apareceu no sexto dos sete dias de campo, na mata pequena.
As duas manchas de floresta formavam uma área contínua antes da abertura do contorno rodoviário de Jacaraípe e do plantio de eucalipto. Como a visita ao fragmento maior ocorreu em período de estiagem, os autores recomendam uma nova amostragem durante as chuvas, com monitoramento acústico, antes de concluir que o sapo está ausente do local.
Um gênero que está sumindo
O gênero Dryadobates foi proposto em 2025 por Grant e seis pesquisadores do Brasil e da Alemanha, que separaram as espécies de Mata Atlântica das demais, até então reunidas em Allobates. Boa parte dessa reorganização dependeu de museômica, o conjunto de técnicas que extrai e sequencia DNA de animais fixados em formol e guardados em coleções há décadas. Uma das oito espécies do gênero foi descrita no ano passado a partir de material de museus e dada como extinta no mesmo artigo em que ganhou nome.
“Ao menos três espécies de Dryadobates do Rio de Janeiro parecem extintas, e há motivos para suspeitar que existiam outras em São Paulo e no Paraná, que desapareceram antes de serem registradas pela ciência”, observa Grant. “A magnitude do desmatamento no Espírito Santo chama atenção, mas esse quadro faz parte de um problema maior”, pondera. “Os anfíbios são o grupo de vertebrados mais ameaçado de extinção do planeta.”
O tamanho do fragmento pesa por causa da biologia reprodutiva do grupo. Os adultos medem cerca de 1,5 centímetro. As fêmeas escondem os ovos na serrapilheira e, quando eles eclodem, os machos carregam as larvas nas costas até a água, às vezes a mais de cem metros de distância. “No interior de florestas grandes, a temperatura fica baixa e a umidade alta o ano todo”, explica Grant. “Fragmentos pequenos ficam mais quentes e mais secos. A serrapilheira perde umidade, os ovos ressecam e os adultos correm risco de desidratação.” O Super El Niño que está começando, acrescenta o pesquisador, deve tornar a situação mais difícil.
Para Grant, atribuir uma classificação de risco na própria descrição tem efeito prático. “Ela chama atenção para o fato de que a espécie entra para a ciência precisando de proteção. Ao mostrar que ela existe, onde ocorre e qual é a gravidade da situação, damos base para decisões de conservação”, afirma. “Descrever uma espécie não é apenas dar um nome a ela”, resume. “É o primeiro passo para que ela possa ser protegida.” A prioridade, no caso da caissara, é preservar o que resta do fragmento e deixar a vegetação se regenerar nas áreas degradadas.
Homma vê a descrição de espécies ameaçadas virar rotina no país. “O desmatamento avança mais rápido do que a nossa capacidade de descrever a biodiversidade da mata que está sendo derrubada. É uma corrida injusta. Há incentivo financeiro para desmatar, e nós precisamos disputar financiamento para ir a campo e sequenciar”, afirma. “As pessoas que vivem na região jamais imaginariam que existe uma espécie nova ali. Podemos ter no quintal de casa algo completamente novo para a ciência”, diz.
O artigo A critically endangered new species of Dryadobates (Anura: Aromobatidae) from Espírito Santo, Brazil pode ser lido em: mapress.com/zt/article/view/zootaxa.5845.2.6.





