Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), o Rio Doce ainda convive com as consequências de um dos maiores desastres ambientais do país. Um estudo da Universidade Federal de Lavras (UFLA) mostra que a diversidade de peixes nativos diminuiu nas áreas mais atingidas pela lama de rejeitos, enquanto espécies invasoras ganharam espaço e passaram a dominar trechos importantes da bacia.

A pesquisa, coordenada pelo professor Paulo Pompeu, do Instituto de Ciências Naturais da UFLA, analisou cerca de 65 espécies de peixes em dez pontos ao longo da calha do Rio Doce. Utilizando a técnica de isótopos estáveis para identificar as fontes de alimentação dos animais, os pesquisadores constataram que, quanto mais próximo da área do desastre, menor é a variedade de recursos disponíveis para os peixes.

Essa simplificação da cadeia alimentar favorece espécies mais resistentes e generalistas, capazes de sobreviver em ambientes degradados, enquanto peixes com hábitos alimentares mais específicos tendem a desaparecer.

Segundo Paulo Pompeu, a situação é agravada porque o Rio Doce já apresentava histórico de degradação antes do rompimento da barragem, com impactos provocados por esgoto doméstico, mineração e desmatamento. Para separar esses efeitos dos causados pelo desastre, a equipe comparou a fauna da calha principal com a de afluentes menos impactados.

O resultado foi claro: rios preservados mantêm comunidades de peixes muito mais diversificadas, reforçando que o rompimento da barragem acelerou a perda da biodiversidade na calha principal.

Hoje, cerca de um quarto das espécies encontradas na bacia já é formado por peixes não nativos. Em alguns trechos, eles representam metade de toda a fauna. Entre os invasores estão tucunarés, tilápias, piranhas e espécies de lambaris, que competem por alimento e predam peixes nativos, dificultando ainda mais a recuperação do ecossistema.

Controlar essas populações é um dos maiores desafios ambientais da região. Segundo o pesquisador, não há registros de programas bem-sucedidos no mundo que tenham conseguido erradicar completamente espécies invasoras de peixes em grandes rios, devido à rápida reprodução e à dificuldade de captura.

Apesar do cenário preocupante, o estudo aponta sinais de recuperação. Rios preservados da bacia, como Santo Antônio, Manhuaçu e Piranga, funcionam como verdadeiros refúgios da biodiversidade. À medida que a qualidade da água melhora, peixes nativos desses afluentes voltam a ocupar a calha principal do Rio Doce.

Os pesquisadores afirmam que a recuperação dependerá da continuidade das ações de saneamento, retirada dos rejeitos, reflorestamento e conservação dos afluentes ainda preservados. Sem essas medidas, a recomposição da fauna poderá levar décadas.

As conclusões fazem parte do livro “Recuperação Ambiental da Bacia do Rio Doce: Contribuições da Ciência Após Dez Anos do Rompimento da Barragem de Fundão”, que será lançado em setembro.