As florestas públicas não destinadas (são áreas públicas, pertencentes à União ou aos estados, que ainda não possuem um uso ou propósito oficialmente definido. Na prática, são terras ricas em biodiversidade, mas sem proteção especial, o que as torna vulneráveis a crimes ambientais), da Amazônia desempenham papel fundamental na manutenção dos chamados rios voadores, correntes atmosféricas que transportam umidade da floresta para diversas regiões da América do Sul. É o que aponta um estudo desenvolvido pela Amazon Conservation em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

Responsáveis por mais de 70% das chuvas em áreas estratégicas do Peru e da Bolívia, os rios voadores influenciam diretamente a agricultura, o abastecimento de água, a geração de energia e o equilíbrio climático em escala continental. Segundo os pesquisadores, a integridade das florestas amazônicas é essencial para que esse sistema continue funcionando.

A pesquisa identificou que grande parte dessas rotas de transporte de umidade atravessa áreas conhecidas como Florestas Públicas Não Destinadas (FPNDs), que somam cerca de 50 milhões de hectares na Amazônia. Apesar da importância ambiental, essas áreas estão entre as mais vulneráveis ao desmatamento e à grilagem de terras.

O estudo introduz o conceito de Territórios de Umidade Crítica, regiões consideradas estratégicas para a formação e manutenção dos rios voadores. Entre os pontos de maior atenção estão o Acre e áreas próximas às rodovias BR-319 e BR-364, onde a pressão por ocupação e expansão da infraestrutura aumenta o risco de degradação ambiental.

Os pesquisadores alertam que a interrupção desses corredores florestais pode provocar impactos em cadeia, reduzindo o volume de chuvas, aumentando a frequência de secas e afetando a produção agrícola. A seca histórica registrada na Amazônia entre 2023 e 2024 é citada como exemplo da vulnerabilidade do sistema diante da combinação entre mudanças climáticas e desmatamento.

Entre as recomendações estão a destinação e proteção das florestas públicas ainda sem status definido, o fortalecimento de programas de conservação, a recuperação de áreas degradadas e a ampliação da cooperação entre os países amazônicos. Para os autores, preservar os rios voadores significa proteger uma infraestrutura natural indispensável para a segurança hídrica, alimentar e energética de todo o continente.