A Bacia Amazônica abriga mais de 2.700 espécies de peixes de água doce, cerca de uma em cada sete espécies conhecidas no mundo. O número confirma a região como a bacia hidrográfica de maior biodiversidade de água doce do planeta, mas um novo estudo alerta que essa riqueza pode estar diante de um ponto de inflexão. O relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, elaborado pela The Nature Conservancy em parceria com mais de 30 organizações, aponta que a oportunidade de preservar o funcionamento natural dos rios amazônicos está se reduzindo rapidamente.

Mais do que contabilizar espécies, o levantamento mostra a importância dos peixes para o equilíbrio dos rios e para a vida das populações que dependem deles. A pesquisa combina, pela primeira vez em uma análise de toda a bacia, dados científicos com conhecimentos ecológicos de povos indígenas e comunidades tradicionais e locais. Os peixes aparecem não apenas como parte da biodiversidade, mas também como fonte de alimento, renda e elemento presente na cultura e na identidade de comunidades espalhadas pela Amazônia.

O alerta está relacionado à combinação de pressões provocadas pela atividade humana. Hidrelétricas, desmatamento, poluição, pesca excessiva e mudanças climáticas alteram a dinâmica dos rios, fragmentam habitats, prejudicam a circulação dos peixes e afetam a qualidade da água. Segundo o estudo, esses impactos não devem ser analisados de forma isolada, já que a bacia funciona como um sistema conectado. A perda dessa conectividade pode comprometer tanto a biodiversidade quanto as atividades econômicas e a segurança alimentar de milhões de pessoas.

O relatório chama atenção, porém, para uma diferença importante em relação a outros grandes sistemas fluviais do mundo: boa parte da Amazônia ainda mantém características naturais que permitem agir antes de uma degradação em larga escala. A conservação de áreas protegidas e, principalmente, a atuação de povos indígenas e comunidades locais são apontadas como elementos centrais para manter rios preservados. O conhecimento acumulado por essas populações ao longo de gerações também pode contribuir para decisões de conservação mais adequadas às características de cada território.

A mensagem central do estudo é que preservar a Amazônia não significa apenas proteger espécies isoladas, mas manter o funcionamento de toda a rede de rios da bacia. Para os pesquisadores, isso exige ações coordenadas entre governos, comunidades, cientistas e setor privado, com atenção à proteção dos territórios indígenas e à manutenção da conectividade dos rios. A avaliação coloca a Amazônia diante de uma espécie de corrida contra o tempo: ainda existe espaço para evitar perdas significativas, mas a janela para fazer isso enquanto o ecossistema permanece funcional está se fechando.