Narrativas substituem fatos e constroem uma realidade conveniente
Há um fenômeno cada vez mais comum na sociedade: pessoas não apenas produzem e disseminam mentiras, mas passam a acreditar nelas. Não por ignorância, mas porque essas versões da realidade atendem às suas paixões políticas.
Criam-se acusações contra adversários que não encontram respaldo nos fatos e se atribuem feitos inexistentes a aliados. O julgamento deixa de ser sobre o que aconteceu e passa a ser sobre o que convém.
Os números referentes a vítimas civis nas guerras são distorcidos, ou simplesmente ignorados. As pessoas criam narrativa que confirmam mentiras que elas querem acreditar, e acabam virando verdade.
Assim, a verdade factual, buscada pelo jornalismo, perde espaço para o desejo de cada um.
Israel criticou o Líbano por, supostamente, matar crianças, enquanto foi Israel que cometeu assassinato de 12 mil e 20 mil crianças na Faixa de Gaza (estimativas da ONU, Unicef e da ONG Save the Children). Os fanáticos de Israel criticam o adversário por algo que ele não fez, e não “acreditam” nos assassinatos provocados pelo país.
Casos graves são amplamente registrados no dia a dia da política brasileira, especialmente quando se aproxima o período eleitoral.
O debate sobre uma eventual taxação do PIX virou exemplo clássico de distorção: a questão foi discutida no governo Bolsonaro, mas enfrentou resistência e foi abandonada. E os bolsonaristas passaram a acusar o governo Lula de taxar o PIX, sem qualquer base real. Inverteram a narrativa: encontram terreno fértil entre quem já está disposto a acreditar na mentira.
São narrativas que cristalizam na opinião pública e atendem o desejo do cidadão. As pessoas tendem a aceitar como verdade tudo aquilo que confirma suas crenças e, por outro lado, rejeitam ou ignoram as informações que contrariam as suas posições. A tendência é acreditar mais facilmente nas críticas ao adversário, em vez de checar a informação. Pior: disseminam essas críticas e o assunto acaba se tornando verdade universal.
A pessoa não busca a verdade, e sim argumentos para sustentar o lado com o qual se identifica.
Facebook, X, YouTube etc, mostram conteúdos semelhantes ao que a pessoa já consome, criando a sensação de que a informação é verdadeira, uma vez que é recorrente, quando, na verdade, é uma visão de cortes da realidade.
Pessoas não apenas acreditam no que querem, elas constroem uma realidade coerente com suas crenças.
Quanto mais uma informação confirma o que alguém já pensa, menor a chance de ela ser questionada.
Joel Leite





