Uma Jubarte se apresentando na orla de Salvador

Durante séculos, as baleias foram perseguidas até quase desaparecerem. Eram vistas como óleo, carne, lucro. Hoje, a ciência começa a traduzir em números aquilo que o oceano sempre soube: uma baleia viva vale mais do que morta. No Brasil, pesquisadores estimaram que os serviços ambientais prestados por esses gigantes podem chegar a 82,5 bilhões de dólares ao longo de suas vidas. Mas o valor real talvez esteja no que não se vê.

Uma baleia de barbatana pode pesar 40 toneladas. Alimenta-se principalmente de krill, pequenos crustáceos que vivem em abundância nos mares e formam a base da cadeia alimentar. Ao se alimentar em profundidade e retornar à superfície, a baleia devolve ao oceano algo precioso: nutrientes. Suas fezes, ricas em ferro e nitrogênio, fertilizam a água e estimulam o crescimento do fitoplâncton , organismos microscópicos que funcionam como as plantas do mar. Eles realizam fotossíntese, absorvem gás carbônico e liberam oxigênio. Quanto mais fitoplâncton, mais carbono retirado da atmosfera. Quanto mais baleias, mais vida circulando.

A bióloga Marina Leite, da ONG Viva Baleias e Golfinhos, em Ilhabela, explica que cada animal tem seu papel ecológico, mas o tamanho das baleias amplifica esse impacto. Uma única baleia carrega uma massa imensa de nutrientes. Seu corpo é um reservatório de carbono acumulado ao longo de décadas. E quando ela morre, geralmente em mar aberto, afunda lentamente, levando esse carbono para o fundo do oceano, onde pode permanecer por muitos anos antes de retornar à atmosfera. Mesmo na morte, ela continua regulando o clima.

O fim da vida de uma baleia também marca o início de outro ciclo. O corpo que primeiro flutua, atraindo aves e tubarões, depois desce até o assoalho marinho e se transforma em um raro oásis de alimento em regiões sem luz. A decomposição completa pode levar décadas, às vezes quase o tempo de uma vida inteira. Durante esse período, centenas de organismos se alimentam daquela carcaça. É um banquete silencioso no fundo do mar. Cientistas levantam uma hipótese inquietante: quando milhões de baleias foram retiradas dos oceanos durante a era da caça industrial, quantas espécies das profundezas desapareceram junto com elas, sem que jamais soubéssemos?

No Brasil, populações como a das jubartes conseguiram se recuperar após a proibição da caça. Elas voltaram a saltar perto da costa, a ocupar áreas onde haviam sido ausentes por décadas. Trouxeram também o turismo de observação, renda para comunidades litorâneas e uma nova forma de relação com o mar. Mas o impacto mais profundo não está nos barcos de passeio, está no equilíbrio invisível que sustentam.

As baleias ajudam a manter a produtividade marinha, influenciam o ciclo do carbono, fortalecem a base da cadeia alimentar e contribuem para o oxigênio que respiramos. São engenheiras discretas do planeta. Quando uma baleia desaparece, não é apenas um animal que se perde. É uma engrenagem inteira do oceano que enfraquece.

Talvez a pergunta não seja quanto vale uma baleia viva. Talvez seja quanto custa um oceano sem elas.